Quem acompanha o cenário jurídico nos últimos anos já percebeu que a inteligência artificial deixou de ser promessa e virou ferramenta de trabalho, trazendo consigo, como toda novidade, uma série de percepções equivocadas. Uma das mais comuns é a ideia de que a IA serve para automatizar tudo, padronizar respostas e tratar cada caso de maneira genérica, quando, na verdade, o contencioso massificado, aquele universo de centenas ou milhares de processos judiciais que as empresas enfrentam na área de direito do consumidor, demonstra exatamente o contrário.
Antes de falar de tecnologia, vale contextualizar o cenário em que essas ferramentas se inserem. Empresas que atuam em setores como telecomunicações, aviação, varejo, serviços financeiros e tantos outros convivem diariamente com um volume expressivo de demandas judiciais, algo inerente à natureza do negócio, pois quanto maior a base de clientes, maior a exposição a litígios. A legislação consumerista brasileira, reconhecida internacionalmente por seu alto grau de proteção ao consumidor, estabelece mecanismos como a inversão do ônus da prova e a interpretação mais favorável ao hipossuficiente, regras que existem por boas razões, mas que, na prática, impõem à empresa um desafio adicional desde o primeiro dia do processo, já que ela precisa apresentar uma defesa tecnicamente robusta e factualmente detalhada para equilibrar essa dinâmica.
É justamente aí que reside o grande desafio do contencioso massificado. Num processo estratégico, como uma disputa societária complexa ou uma arbitragem de grande valor, o advogado dedica dias ou semanas a destrinchar cada documento, cada prova, cada detalhe, ao passo que, no contencioso de volume, esse mesmo nível de aprofundamento sempre foi algo desejado, mas difícil de alcançar na mesma escala, não por falta de competência ou dedicação, mas porque o tempo é um recurso finito e a realidade operacional de quem conduz dezenas de processos simultaneamente impõe escolhas. O resultado, historicamente, era uma defesa que cumpria seu papel sem necessariamente conseguir explorar cada nuance do caso concreto.
E é exatamente nesse ponto que a inteligência artificial muda o jogo, e o faz para o lado oposto do que muita gente imagina.
Ferramentas de IA especializadas, quando bem utilizadas, não tornam o trabalho jurídico mais superficial, mas sim mais profundo, como se pode ilustrar com um exemplo simples: num processo envolvendo uma operadora de telefonia em que o consumidor alega cobrança indevida ao longo de três anos, contestar essa alegação de forma robusta exigiria analisar linha por linha de faturas, cruzar dados de planos contratados e verificar datas de alterações contratuais, tarefa que manualmente poderia consumir horas, mas que, com o auxílio de uma IA bem direcionada (e esse é um ponto importante, que será abordado logo mais), pode ser concluída em minutos, com um grau de atenção ao detalhe que seria impraticável de outra forma, raciocínio igualmente válido para casos envolvendo companhias aéreas com extensos registros de voo e remarcações ou empresas de varejo com históricos complexos de trocas e devoluções.
Convém notar que não se trata de fazer mais processos em menos tempo, pois essa é a confusão mais comum quando se fala em IA e produtividade. O ganho real não está em transformar cinco defesas por semana em dez, mas em transformar cinco defesas por semana em cinco defesas significativamente melhores, que pescam aquele detalhe que, antes, passaria despercebido por uma limitação prática de tempo, que identificam inconsistências nos documentos juntados pelo consumidor e que cruzam informações de forma que, manualmente, demandaria um esforço desproporcional ao valor envolvido no caso. O que muda, em última análise, é a qualidade técnica do produto entregue, e isso beneficia diretamente a empresa que está sendo representada.
Há outro ponto que merece destaque. Muita gente associa inteligência artificial no Judiciário àquela sensação incômoda de que ninguém leu o processo, e, de fato, quando se fala em tribunais que adotam IA para auxiliar na triagem ou na elaboração de minutas de decisão, existe uma preocupação legítima, porém a IA na mão do advogado que defende a empresa tem uma função diametralmente oposta, pois existe para garantir que o processo seja lido com mais atenção, não com menos, funcionando como uma ferramenta que amplia a capacidade analítica do profissional e lhe permite enxergar mais longe e com mais nitidez dentro de cada caso.
Evidentemente, nada disso funciona no piloto automático, visto que uma IA mal utilizada produz resultados genéricos, superficiais e, às vezes, até equivocados. O diferencial está no profissional que a opera, pois é necessário saber construir a instrução correta, entender o que se está pedindo, validar os resultados e integrá-los à estratégia processual, de modo que a tecnologia não substitui o raciocínio jurídico, mas potencializa a capacidade de quem já sabe o que está fazendo, tornando-se, nas mãos de quem domina a técnica e conhece o caso, uma aliada poderosa.
Para as empresas que enfrentam o dia a dia do contencioso de massa, a mensagem é simples: o escritório que investe em inteligência artificial de forma séria e estruturada não está buscando atalhos, e sim exatamente o contrário, ou seja, a capacidade de olhar para cada processo com o nível de detalhe que ele merece, mesmo diante de um volume alto de demandas, o que se traduz em mais atenção, não menos, em mais profundidade, não mais superficialidade, e, no fim do dia, em uma defesa técnica mais sólida protegendo o seu negócio.
