A Justiça do Trabalho manteve o direito de um empregado à redução da jornada de trabalho, sem redução salarial, para possibilitar o acompanhamento do tratamento do filho diagnosticado com Transtorno do Espectro Autista (TEA). A decisão reforça o entendimento de que a proteção à criança com deficiência e o direito ao acompanhamento familiar podem justificar a flexibilização da jornada em situações devidamente comprovadas.
No caso analisado, ficou demonstrado que a criança necessita de acompanhamento permanente e de tratamentos multidisciplinares, exigindo a participação ativa do pai em consultas, terapias e demais cuidados essenciais ao seu desenvolvimento. Diante desse cenário, o Tribunal entendeu que a manutenção da jornada integral dificultaria o exercício desse acompanhamento, comprometendo direitos fundamentais da criança.
Embora a legislação trabalhista não contenha regra específica para empregados celetistas nessa hipótese, a decisão adotou entendimento já consolidado em diversos precedentes, utilizando por analogia a disciplina prevista para servidores públicos que possuem dependentes com deficiência. Além disso, foram considerados princípios constitucionais relacionados à dignidade da pessoa humana, à proteção da família, à prioridade absoluta dos direitos da criança e às normas de proteção das pessoas com deficiência.
Esse posicionamento demonstra que o Poder Judiciário tem reconhecido, em determinadas situações, a necessidade de compatibilizar a prestação do trabalho com os cuidados indispensáveis aos filhos com deficiência, especialmente quando há comprovação médica da necessidade de acompanhamento pelos pais e inexistem alternativas capazes de suprir essa demanda.
Para as empresas, a decisão representa um importante alerta. Pedidos de redução ou flexibilização da jornada formulados por empregados responsáveis por crianças com deficiência não devem ser analisados apenas sob a ótica da ausência de previsão expressa na CLT.
A avaliação deve considerar as circunstâncias concretas do caso, os documentos médicos apresentados, a real necessidade de acompanhamento e os direitos fundamentais envolvidos. Uma negativa sem fundamentação adequada pode resultar em judicialização e eventual condenação.
Como medida preventiva, é recomendável que as empresas estabeleçam procedimentos internos para análise desses pedidos, exigindo documentação médica atualizada e avaliando cada situação de forma individualizada.
Nos casos em que a redução da jornada se mostrar necessária e viável, é recomendável que as condições sejam formalizadas por meio de acordo individual escrito, estabelecendo de forma clara a jornada ajustada, os horários de trabalho, o período de vigência, eventuais critérios de revisão e demais condições aplicáveis. Essa formalização confere maior segurança jurídica às partes e reduz o risco de divergências futuras.
Também é importante capacitar gestores e equipes de RH para conduzir esses casos com critérios objetivos, registrar formalmente as decisões adotadas e acompanhar a evolução da jurisprudência sobre o tema. Essa atuação contribui para reduzir riscos trabalhistas, assegurar maior segurança jurídica e promover um ambiente de trabalho alinhado aos princípios de inclusão e proteção às pessoas com deficiência.
